Análise: governo usa contrainformação e acena a radicais da ditadura

Vídeo divulgado pelo Planalto e ordem do dia de 31 de março reforçaram os laços de Bolsonaro com agentes da repressão nos governos militares

0
33
(foto: Marcos Corrêa/PR)

O comportamento do governo federal em relação ao dia 31 de março de 1964 resgatou práticas e conflitos próprios da ditadura. As manifestações oficiais em favor do golpe militar (foto em destaque) também mandaram recado para os que enfrentaram os adversários do regime fardado. Nesse perfil, enquadram-se tanto os generais e marechais que derrubaram o presidente João Goulart quanto os agentes da repressão sangrenta.

Dois fatos chamaram atenção nas últimas semanas por reforçar as ligações da gestão de Jair Bolsonaro (PSL) com os métodos usados pela ditadura contra os adversários. Nos casos aqui abordados, o governo atuou na divulgação de versões que confrontam a memória registrada dos governos militares.

O episódio mais rumoroso foi a divulgação pela Presidência da República, no domingo (31/3), de um vídeo em defesa da tomada do poder pelas Forças Armadas. Produzida fora da estrutura de governo, a peça publicitária surgiu de um núcleo paralelo de apoio a Bolsonaro.

Postada sem referência de origem, a gravação teve a autoria assumida dois dias depois por um empresário paulista, Osmar Stábile, fã do presidente Bolsonaro. Segundo um advogado que o representa, o vídeo foi uma iniciativa particular, sem qualquer envolvimento do governo. Por causa de repercussão negativa, o Planalto anunciou na sexta-feira (5/4) a abertura de uma investigação administrativa sobre as circunstâncias da postagem do material.

A mensagem faz apologia à atuação dos militares na derrubada do presidente João Goulart e usa expressões como “os comunistas prendiam e matavam os compatriotas”, “o Exército nos salvou” e “não dá para mudar a história”.

Pelo conteúdo e pela forma de distribuição, a gravação tem características de contrainformação. Segundo o dicionário Michaelis, essa é uma técnica usada, na paz ou na guerra, para “assinalar, evitar ou neutralizar” atividades de informações inimigas.

O dicionário on-line Caldas Aulete define contrainformação como uma “ação ou resultado de impedir, frustrar ou dificultar o acesso do adversário ou inimigo a informações próprias”. O vídeo se enquadra nos conceitos dos dois glossários.

No contexto específico, a gravação se propõe a confrontar a abordagem histórica da quartelada de 1964 como um “golpe” militar. Propaga a versão de que o Exército foi chamado, em nome de todo o povo brasileiro, para derrubar Jango.

Com essa propaganda, o Planalto procura legitimar as duas décadas de ditadura. Deve-se registrar que as Forças Armadas chegaram ao poder com a promessa de devolver ao país a democracia, com eleições diretas dois anos depois. Em vez disso, entregaram o governo para a “linha dura” dos militares, coibiram as liberdades, fecharam o Congresso, prenderam, torturaram e mataram adversários.

Não há, portanto, conexão entre as manifestações da população contra Jango e o regime de exceção que durou quase 21 anos. Tentar justificar as ações de torturadores e assassinos com os protestos do início da década de 1960 é falseamento da história. É contrainformação.

Vias institucionais

Esse tipo de iniciativa incomoda os militares acostumados a atuar dentro das vias institucionais. A existência de uma rede extraoficial de colaboradores do presidente foge do padrão formal das Forças Armadas.

Ações dessa natureza despertam preocupação, por exemplo, dos setores de inteligência, pelo risco de descambarem para a ilegalidade e de fugirem do controle da segurança interna. O comportamento dos filhos de Bolsonaro também desagrada aos mais prudentes pelo potencial de gerar turbulências no governo.

Ao divulgar o vídeo, o Palácio do Planalto avalizou a produção paralela. Com isso, deixa aberta a porta para atitudes extraoficiais e sem responsabilidade clara.

Antes da divulgação do vídeo, outro fato revelara a simbiose do governo de Jair Bolsonaro com os porões do regime militar. Isto passou despercebido para a maioria das pessoas, mas a ordem do dia do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, sobre o 31 de março faz um aceno para os agentes da repressão que sujaram as mãos no combate aos inimigos dos governos das Forças Armadas.

Ternuma

O recado para a “tigrada” – expressão usada pelo jornalista Elio Gaspari para definir a linha dura da repressão militar – está no último parágrafo da mensagem do ministro.A Marinha, o Exército e a Aeronáutica reconhecem o papel desempenhado por aqueles que, ao se depararem com os desafios próprios da época, agiram conforme os anseios da Nação Brasileira”ordem do dia do Ministério da Defesa

A descrição acima contempla a turma que torturou, matou e escondeu corpos de inimigos dos governos militares. Leitores do site do grupo Terrorismo Nunca Mais (Ternuma) notam a semelhança desse trecho da ordem do dia em questão e uma frase dita pelo general Walter Pires, último ministro do Exército da ditadura:Estaremos sempre solidários com aqueles que, na hora da agressão e da adversidade, cumpriram o duro dever de se opor a agitadores e terroristas de armas na mão, para que a nação não fosse levada à anarquia”general Walter Pires

Veja a frase do ministro reproduzida em uma página do Ternuma:

Ternuma/Reprodução
TERNUMA/REPRODUÇÃO

Dita no ocaso do regime autoritário, a frase do general foi por muito tempo usada como epígrafe no site do Ternuma, grupo formado por militares da reserva que, desde 1998, assumiu a defesa dos agentes da repressão.

Nas duas citações, as referências indiretas à “tigrada” aparecem nas expressões “agiram conforme os anseios da nação” e “cumpriram o duro dever de se opor a agitadores e terroristas de arma na mão”. Como se a sociedade brasileira tivesse autorizado a atuação sanguinária e criminosa dos que agiram nos porões.

Brilhante Ustra

A defesa de torturadores e assassinos está coerente com declarações de Bolsonaro em favor dos atos do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que chefiou o Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) de São Paulo, um dos principais centros da repressão da ditadura.

Para os militares comprometidos com a redemocratização, a insistência do presidente em lembrar os Anos de Chumbo provoca tensões desnecessárias no país. Embora o sentimento geral nas Forças Armadas seja de defesa dos governos fardados – o que explica o conteúdo daquela ordem do dia –, existe uma avaliação interna de que o período deve ser tratado no contexto dos fatos históricos, sem alardes.

Ao mesmo tempo que não fazem autocrítica, os militares ainda se ressentem do desgaste sofrido na passagem pelo poder. O fracasso econômico, a incapacidade política e o envolvimento com violações graves dos direitos humanos desmoralizaram as Forças Armadas.

Apesar dessa avaliação, insatisfeitas com os governos do PT, as cúpulas da Marinha, do Exército e da Aeronáutica apoiaram a eleição de Bolsonaro. Generais com carreiras de destaque ocupam postos importantes no Planalto e na Esplanada. Agora, trabalham para evitar novo desastre no governo do capitão.

Informações do Portal Metrópoles