“Não vamos dar mole para o crime”

Em entrevista exclusiva, Anderson Torres, fala sobre as ações que vêm sendo adotadas e que levaram à queda observada nos índices de violência no DF

“A ordem é prender todo mundo”

Jbr. entrevistou o Secretário de Segurança de Segurança Pública do DF, Anderson Torres, que afirmou: ‘Não vamos dar mole para quem comete crime em Brasília’

Secretário de Segurança Pública do DF, Anderson Torres acredita que o trabalho conjunto das forças de segurança são responsáveis pelas quedas observadas nos índices de violência na capital. Em entrevista exclusiva ao Jornal de Brasília, o chefe da pasta classifica seu trabalho à frente da SSP como o de um “técnico dos times que estão jogando”, já que a pasta, por ordem do governador Ibaneis Rocha, centraliza decisões que eram tomadas por cada corporação.

Sobre Ceilândia, historicamente líder nas taxas de violência do Distrito Federal, o chefe da segurança do Distrito Federal acredita que somente com inteligência policial os cidadãos da RA IX terão uma cidade segura para morar. Ele também comentou sobre a criação da Guarda Civil Distrital (GCD), destinada ao cuidado do patrimônio público, que poderia aliviar atribuições da Polícia Militar (PMDF).

Sem pestanejar, Torres afirma que não deixará delitos sem soluções à frente da SSP.

“Não vamos dar mole para quem comete crime em Brasília. A ordem é prender todo mundo. Não vai ter crime sem alguém ser preso. Foi assim com o padre da 914 Norte, e assim vai ser com todos no DF.”

Homicídios (11,3%), latrocínios (10,3%) e estupros (15,3%) apresentaram queda em relação ao ano passado. Qual mudança ocorreu de 2018 para cá que explique essa redução?

A primeira questão fundamental na Segurança Pública é a integração entre as forças. A Polícia Civil e a PM entenderam que precisam trabalhar juntas e coordenadas. O governador disse que isso tem que ficar centralizado na SSP. Não que a gente queira ser protagonista, mas todo time tem que ter um técnico, e eu entendo a secretaria como um técnico dos times que estão jogando. Ajudou muito no redirecionamento dos policiais e das investigações. A Polícia Civil também retomou um trabalho que vinha numa marcha meio lenta. Essa retomada da PCDF, a quantidade de operações policiais e a quantidade de prisões realizadas neste ano ajudaram muito e têm reflexos nesses números.

Quais motivos explicam o foco de violência em Ceilândia, que historicamente lidera os índices criminais no DF?

A Ceilândia é um dos nossos principais focos de atuação. É a maior população do DF, com um território gigantesco. Existe ali o crime há muitos anos, desde o início da cidade. A gente precisa trabalhar com inteligência e com foco naquela região para ver se consegue diminuir. Agora, a população só aumenta, às vezes de forma desorganizada, como é o caso dos locais que apareceram ali, e isso tem um impacto direto na Segurança Pública. A gente fala que as desordens na cidade têm um impacto direto na Segurança Pública.

Quais os benefícios da criação de uma Guarda Civil Distrital?

Toda a PM usada para cuidar dessa área central, de patrimônio público, esse tipo de atividade seria para a Guarda Distrital. Ela não tem a finalidade de repressão ao crime, ela tem uma atribuição de guarda do patrimônio público. Entretanto, é óbvio que ela pode prender em flagrante e ter atuações que deixaria a PM mais concentrada nas atividades-fim, e traria conforto para as cidades do Distrito Federal. Mas não viria para esse ano, precisa de tempo para amadurecer. Tem que ser criado por lei, tem que ter orçamento previsto, e nada disso foi feito ainda. É um belo projeto, acredito nele.

A quantidade de estupros e feminicídios tem assustado a população. Como combater esses crimes?

É claro que existe o estupro no meio da rua, mas geralmente é dentro de casa, dentro de um carro. São crimes que nos preocupam, principalmente pela dificuldade na prevenção. É o que a gente tem procurado fazer aqui na SSP, e tem surtido efeito, principalmente na questão do feminicídio. Houve alguns casos, mas a população vem se conscientizando. A gente tem conseguido atuar antes que o crime aconteça. No caso do estupro é a mesma coisa. É mais uma questão de prevenção e educação do que de Segurança Pública propriamente dita.

Houve rusgas entre a PM e o Buriti com a troca no Comando-Geral da corporação. Como sinalizar que a pasta está aberta a reivindicações?

Eu não vejo que há uma rusga, são mudanças naturais. É uma nova gestão com novas ideias, novos rumos. Os resultados estão aí. Toda mudança tem certa resistência na PM, na PC, apesar de ter sido discutida. Nosso foco é o interesse público. Questões como o Hospital da Segurança Pública, mudança de horário, questões mais delicadas trazem mais questionamentos, mas precisam ser enfrentadas. Quanto à troca [do Comando-Geral], eu não entendo como uma crise com a PM. Eu tenho todo um carinho pela Polícia Militar, e o que temos tentado é um novo direcionamento nas ações da forças de segurança para que a população se sinta segura. É esse o meu trabalho aqui.

O governador apontou “desalinhos” para trocar o comando da PM e a chefia da Casa Militar. Como exatamente o novo comandante, coronel Julian Pontes, está alinhado ao GDF?

Na verdade, o coronel Pontes coordenava todas as operações integradas no CIOB [Centro Integrado de Operações de Brasília]. Chegou com uma bagagem dentro da nossa filosofia de gestão. Nosso objetivo é a integração entre as forças e ele comandava isso. É extremamente normal. Se você pegar todos os comandantes-gerais dentro da PMDF, há uma troca a cada sete meses. Não foi uma coisa de outro mundo, e o coronel Pontes está dentro da nossa linha de integração e de melhorar a qualidade de vida da população.

Em 2018, sete policiais militares tiraram a própria vida. Quais esforços são feitos para preservar a vida e a saúde mental dos agentes?

É um assunto muito delicado, que tem que ter muito tato para lidar com isso, e não deve ser tratado por quem não entende do assunto como um secretário de Segurança Pública. A gente tem muito cuidado, procuramos profissionais para falar disso. E é o que a SSP tem feito.

O senhor deu nota oito para a segurança pública do DF. O que falta para chegar à nota máxima?

A gente vive uma crise de segurança muito grande em todo o país, e quando eu digo nota oito no DF eu faço um comparativo com o país. Brasília é tida e havida como uma cidade segura. Muitos servidores vêm removidos para cá e não voltam. Por quê? Porque aqui é bom, tem qualidade de vida e é considerada tranquila nos parâmetros nacionais. Eu acho que para a gente chegar num patamar superior ao que nós temos, além de muito trabalho nosso, a gente depende também de uma conjuntura nacional.

Há algum modelo Brasil afora que se aplique ao DF, ou o DF já pode exportar modelos de Segurança Pública?

Brasília tem um nível muito bom. É muito difícil ser secretário de Segurança Pública aqui, porque melhorar os índices de Brasília num momento de crise grave no país é muito complicado. Mas a gente tem sempre que aprender. Quero estudar co-gestão dos presídios, quero ver a questão de ressocialização de outros estados. Nós queremos melhorar. Eu quero ir a Santa Catarina aprender sobre o sistema penitenciário de lá.

O DF apresenta pouco mais de 8 mil vagas penitenciárias e tem um contingente de 15 mil presos. Tem algum projeto para melhorar isso?

O déficit carcerário no Brasil hoje é de 69%, e em Brasília é de 126%. Quando assumimos, havia uma licitação feita pela Secretaria de Justiça (Sejus) – quando a Sesipe estava lá – que estava travada há algum tempo. Destravamos, reassinamos o contrato com a segunda colocada e estamos com previsão de ter mais três Centros de Detenção Provisória (CDP) com 3.200 vagas até abril ou maio do ano que vem. Isso vai dar um respiro muito grande. Com base nos dados, nem sei se serão CDPs, porque o problema está no regime fechado, não está no provisório. O número de condenados é bem razoável em relação ao de presos provisórios. Sempre vão haver presos provisórios, mas a Justiça aqui tem funcionado bem.

Informações do Jornal de Brasília

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